Terça-feira, 28 de Junho de 2005

TSUNAMI EM CARCAVELOS

O Alfinete de Peito desde o dia 10 de Junho (Dia de Portugal) que anda intrigado com o fenómeno da praia de Carcavelos. Depois de vários estudos científicos efectuados pela nossa equipa apurámos que o que aconteceu foi apenas uma miragem.

Na realidade o que sucedeu foi que uma grande família africana (cerca de 500) realizou a sua reunião anual nesse dia, tendo decidido dar um passeio pela marginal após o almoço, pelas 15 h. Ao pararem junto à praia de Carcavelos, o olheiro da família - Ti Manel Con Guito, vislumbrou uma onda gigante, e mesmo sabendo que tinha 10 dioptrias no olho direito e 15 dioptrias no olho esquerdo não hesitou em gritar “Tsunami”.

Sem saber o que fazer ou como alertar as pessoas, desataram a correr pelo areal a dentro, deitando mão a tudo o que podiam, de forma a que as pessoas os seguissem para fora de perigo, ficando deste modo a salvo da onda gigante. Como abrigo utilizaram o Pingo Doce local e as estações de comboio da linha de Sintra.

 
 
A equipa de cientistas do Alfinete de Peito emitiu o seguinte comunicado em relação ao sucedido:

O Tsunami é um produto das grandes metrópoles. Advindo da massificação, pobreza, exclusão, marginalidade, dependências, tudo se joga e desenvolve em função dos mitos produzidos pela metrópole – o prazer, a competitividade, o consumo. O fenómeno ao contrário do estudado não teve origem nas praias asiáticas, mas sim nas praias brasileiras na década de 80. No caso específico de Lisboa é um sintoma de uma doença mais profunda: a preguiça e a propaganda de mãos dadas, a falta de autoridade e reforço policial e cada vez maior emergência de bandos. As forças polícias padecem do síndrome aspirinas, aliviam a dor, mas não resolvem a doença.”

 
 
No dia seguinte houve uma réplica na praia de Albufeira, mas felizmente alguns elementos da família Con Guito (cerca de 50) estavam por lá e resolveram a situação. Nos dias seguintes têm-se visto alguns elementos do clã Con Guito a ajudarem pessoas nos combois da linha de Sintra. Ainda bem que nos dias de hoje se encontram pessoas prestáveis.

 
 
A PJ que ocorreu ao local infelizmente não sabia nadar e por ter medo da onda e de reconhecer o esforço da família Con Guito, preferiu dizer que se tratou de um “arrastão” e enviar as culpas de uma operação falhada para cima de quem não deve. Sentido-se injustiçados obtivemos os testemunhos de algumas mães dos jovens que ajudaram no salvamento:
 

 
Zulmira Kizomba (Mãe de Tímoteo Macedo aka “Damo): Eu não acredito que estão a acusar um rebento meu. O meu Timo sempre foi muito dedicado à família. Até posso dar um exemplo. A semana passada estavamos nós a ver o “Os Jika da Lapa”, tinhamos feito muamba, quando de repente a televisão morreu. Meu Timo disse logo “Não te preocupes Mãezinha, vou já buscar outra.”. Como já passava da meia-noite fiquei muito preocupada dele sair aquela hora, porque existem muitos assaltos aqui no bairro e temia pelo meu menino. Para meu espanto ele aparece 45 minutos depois com um ecrã plasma da Sony, ainda a tempo de ver o final do programa. Perguntei-lhe quanto custou e ele respondeu “Não sei, estava na montra da SingerLEVE AGORA, PAGUE DEPOIS - e eu trouxe”. Ele nunca faria mal a ninguém.
 
 

Zuleika do Socorro (Mãe de Alberto Morna aka “Beto Mãozinhas): Meu Beto é incapaz de fazer mal a uma mosca, ele é muito amigo dos animais. Até criou um clube de veterinários cá no bairro “Os Cães da Morte”. Ele é muito amigo do seu pitt-bull “Killa”, anda sempre com ele, junta-se aos seus amigos veterinários e vão todos em grupo passear os animais.

 
 
Sheila do Canavial (Mãe de Edmilson aka “Janado): Lava a língua antes de falar do meu filho, ele é um menino de ouro. É louco por atletismo, melhor que o Obikwelu. Ele costuma ir treinar para as praias, as outras pessoas gostam e até tentam apanhá-lo, mas nunca conseguem. Ele é tão amigo da polícia, até os ajuda nos treinos, eles bem correm atrás dele. Quando ele corre na praia, traz sempre alguma coisa para casa. Ele até diz “Mãezinha não vai acreditar a quantidade de coisas que as pessoas se esquecem na praia: telemóveis, relógios e carteiras cheias do guito”. Como podem ver, muito amigo da mamãe.

 
 
Janado a treinar no areal de Carcavelos

Fatinha Kuduru (Mãe de Adalberta aka “A Berta): Minha A Berta é uma rapariga muito trabalhadora. Diz que trabalha numa loja de conveniência, e eu concordo, tudo o que ela trás para casa é muito conveniente. Ainda faz um part-time como guia turística do Parque de Monsanto. Ela chega sempre muito cansada, cheia de dores nas ancas e com os lábios dormentes, deve ser de tanto falar.

Quem ficou chateado com estes herois das nossas praias, foram os cabeças rapadas (útil para quem tem piolhos ou para quem não quer perder muito tempo a secar o cabelo) que proferiram o seguinte comunicado:

Zé Xeno (Líder do movimento de extrema-direita “Skins de Fátima”): Estamos fartos desta controversia toda, queremos por tudo branco no preto. Defendemos o nacionalismo e o uso do corrector. Todos estes problemas de Xenofobia e Racismo tiveram origem na máquina de lavar, é do senso comum que não se mistura roupa branca com roupa de cor. Props para os Skins do Vaticano.

Nos entretantos as autoridades responsáveis lançaram um panfleto com alguns conselhos úteis em caso de “Tsunami” nas praias deste país à beira-mar plantado, apresentamos de seguida alguns:

1 - Leve apenas o essencial: telemóvel no caso de precisar de ligar à polícia, dinheiro para pagar o transporte de volta para casa caso lhe roubem as chaves do carro, e uma tanga para entrar na moda do défice. Outros adereços são dispensáveis.

2 - Se estiver na Praia do Evaristo, leve apenas o dinheiro necessário para se alimentar, o ordenado mínimo deve possibilitar um almoço para sí e para o seu cônjuge.

3 - Caso seja assaltado, não guinche que nem um porco, experimente fazer-lhe uma pergunta complicada “Quanto é 2+5 ?”, enquanto o assaltante pensa aproveite para fugir, garantimos que tem no mínimo 2 a 3 minutos.

O Alfinete de Peito gostaria de prestar os seus props aos “dreads” da Brandoa, ao “gangsta rap” de Cacém, ao Snopp Dogg, aos “Hip-hopers” de Chelas e aos “Shaka-Zulu” da Lapa pelas informações prestadas.

Pensamento do Dia: Não se pode julgar a floresta por causa de uma arvóre. É bem verdade que actos de vandalismo como estes, só fazem crescer em flecha o racismo e a xenofobia, que já são elevados em Portugal. Por vezes a vontade de fazer justiça pelas próprias pode-se apoderar de uma pessoa, mas esse não é o caminho. A Polícia devia ter mais meios e essencialmente mais autoridade para resolver este tipo de situações. Na América resolvem este tipo de problema com deportações até, cremos, à 3º geração. Se um neto de um português já nascido nos EUA cometer um crime é deportado para Portugal. Esperemos não ter que chegar a este tipo de medidas. Há uma regra de sociologia segundo a qual ao patamar de desenvolvimento de uma determinada sociedade corresponde sempre um nível de violência idêntico ao de todas as sociedades nesse patamar. Assim sendo, a tendência é para a violência aumentar, no entanto esperemos que não, que haja maior civismo e apoio do estado para estas pessoas que precisam de ajuda.

Temos dito.

Ass: Grizo, Kozmix e Mercador.

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pregado por Alfinete de Peito às 13:05

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15 comentários:
De galinha a 28 de Junho de 2005 às 14:06
Esse Janado vai longe no atletismo... Por acaso não tem o contacto do aka "Damo"? A minha televisão já está velhota...
O texto está muito bom. É reconfortante saber que há mais gente a brincar com as coisas sérias.
De Kabum a 28 de Junho de 2005 às 18:23
Bom texto hehe
Essa Locomotiva posso enviar textos meus antigos ou teem de ser novos?!
De Vera Cymbron a 28 de Junho de 2005 às 18:31
Eu diria "fabulástico"!
Muito bom mesmo...
Obrigada pelo vosso humor.
Jinhos
De agua_quente a 28 de Junho de 2005 às 19:52
Não há dúvida que fazem uma abordagem irónica e inteligente do problema. Mas deportações serão solução? Muita gente precisa de ajuda no âmbito deste problema. As vítimas, os que fomentam o medo, os que praticam esses "tsunamis" (é preciso questionar porquê), etc. Complicado.
Beijos
De lique a 28 de Junho de 2005 às 20:23
Bem pensado, bem analisado, divertido. Mas este problema é tão complexo...
beijos
De Moon* a 28 de Junho de 2005 às 20:44
Adorei... posso até dizer que tive alguma dificuldade em controlar-me, quero dizer a controlar o meu riso compulsivo... ía sufocando, até que veio Tó Zé Manel aka Chino, deu-me uma palmada nas costas e "gamou-me" o portátil.
Filho da mãe (Gertrudes Vanessa)!!!
Ainda agarrei no taco de basebol e corri atrás dele para lhe tratar do "couro", mas o que eu não sabia é que ele tinha uma costela índia e que era também conhecido pelo Pernas-velozes-começo-a-correr-e-nunca-mais-me-apanham.
E assim foi...
De A. Duarte Lázaro a 28 de Junho de 2005 às 22:31
Hilariante e inteligente (como sempre)
De Micas a 29 de Junho de 2005 às 07:23
Isto é o que se chama de saber fazer humor com inteligência, não é fácil nem todos tem esse dom. Excelente texto que nos deixa a reflectir ainda que nos tenha feito rir.
De RC a 29 de Junho de 2005 às 13:23
Oi,

Parabéns!! Não é bem para ter piada mas acabar por ter, mt fixe!

Um abraço
De Carlos Barros a 29 de Junho de 2005 às 23:25
Con guto, não quer dizer com dinheiro, ric, com pasta? porque se dão ao trabalho de ir para praias do povo... esses con guitos são mesmo "burros" com a quinta da marinha ali tão perto foram metrer-se em carcavelos.
mesmo sem as carteiras sem o dito, só se é o sitio para o primo janado treinar.. mas ouvi dizer que na dita quinta tem pista de cavalos.

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