Quinta-feira, 17 de Maio de 2007

BLOQUEIO DE AUTOR

Bloqueio de autor, ou no meu caso, de autora, é tramado. É tramado porque eu gosto de escrever. E não ter algo sobre o qual escrever é frustrante. Como agora. Estou a utilizar a função metalinguística para ocupar espaço no texto. Ou noutras palavras, meter palha. Ou encher chouriços. Vêem? Agora estou a utilizar o metaforismo para o mesmo efeito. E quando disse “Vêem?” estava a utilizar uma pergunta retórica. E, de uma maneira geral, dei uso à estupidez*.

 

Mas voltando ao assunto, bloqueio de autora é uma coisa chata. Não só dá uma pequena comichão na orelha direita, como persegue as pessoas durante uns tempos, tornando-se assim difícil proferir qualquer frase com mais de três palavras. E sim, eu estou ciente que estou a construir frases com mais de três palavras. Ou então não.

 

O ridículo é que, por norma, o bloqueio se realiza por fases. A primeira é constituída pelos dez minutos iniciais, durante os quais se olha fixamente para um documento em branco à espera que o cérebro reaja. Requer-se silêncio absoluto. É aqui que um qualquer alarme um tanto ou quanto ruidoso dispara. Segue-se pequeno espasmo no olho esquerdo.

 

Durante a segunda fase, e após atirar com relativa força um piano à fonte do alarme, os olhos fogem do documento em branco e procuram algo no meio ambiente que provoque uma reacção no cérebro: um livro, um CD, aparelhagem, estante, fita-cola, agrafador, furador, chão, tecto, parede, janela, candeeiro, mesa, mãos, computador, pó, cortinados, chão outra vez, madeira, o piano atirado janela fora…

 

Na terceira fase, começa o desespero. Fala-se com pessoas aleatoriamente, na vã esperança que algo na conversa tenha interesse suficiente para ser aproveitado e desenvolvido na escrita. Nunca resulta e as pessoas com quem se iniciou uma conversa não nos param de dar sugestões patetas e mentecaptas.

 

“Olha, tipo, podias, tipo, gozar, tipo, com ‘A Bela e o Mestre’. Tipo.”

 

Tipo, não.

 

A quarta fase é, sem dúvida, a mais frustrante. A ideia surge de facto na cabeça, mas sempre no momento quando não se tem à mão algo onde a anotar. Mesmo que se tente repetir a ideia na cabeça repetidamente, a fim de não a esquecer, ela desaparece no momento em que alguém vos pergunta as horas.

 

“EU TINHA A RESPOSTA PARA O SENTIDO DA VIDA, IDIOTA!”

 

A quinta fase tem início no momento em que se consegue deitar a mão a uma folha de papel ou a um computador. Mas a ideia já se foi há muito, voltando-se à primeira fase.

 

A sexta fase acontece quando, num estado de puro desespero, se decide escrever sobre o próprio bloqueio, dividindo-o em fases e explicando-as pormenorizadamente, numa vã tentativa de auto-satisfação. Não que eu alguma vez tenha chegado a esse ponto.

 

* Não, a estupidez não é um recurso estilístico.


Pensamento do Dia: Alcachofra

 

Temos dito.
Ass: Anaoj
sinto-me: bloqueada
música: Shout Out Louds - There's Nothing

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